"Um corpo sem alma é como um disco de vinil que não toca ..."

"O jornalista fere no peito o escritor. O escritor repele o jornalista, por esmagá-lo, por obrigá-lo a renascer quase sempre de um mesmo patamar. Feliz daquele que, nesse embate, consegue servir, e bem, aos seus dois senhores..."

Política. Música. Música. Vida. Rock. Cinema. Cultura.

quarta-feira, 21 de junho de 2006

ZL - Meninos do Trem

O texto é longo e foda. Mas se preferirem podem ir ver Belíssima ou os jogos da Copa.

Uma infelicidade muito grande me causa andar de trem. Não pela péssima qualidade, nem por ficar vários minutos parado entre uma estação e outra. A origem da tristeza, e mais especificamente do espanto, não está no descaso com o transporte coletivo. Não é um ressentimento ferroviário, mas sim humano e social.
O que me causa profundo desespero é observar que cada vez mais, os trens metropolitanos de São Paulo tornam-se passarelas de sobrevivência para os vendedores ambulantes. Mais grave que isso, são as crianças desde cedo se aventurando e fugindo dos guardinhas de estação para vender ilegalmente seus produtos: balas, chocolates, pilhas, canetas e uma infinidade de quinquilharias.
Ainda pior. Essas crianças não conseguem visualizar um futuro diferente e melhor. Ficam vulneráveis aos efeitos da marginalização. E é à margem da sociedade que elas tendem a se infiltrar e se estabelecer.

Numa Terça- feira qualquer, as onze horas da manhã, estava sentada num banco duro de um trem da pior linha ferroviária existente em São Paulo: a F- Calmon Vianna / Brás. Observava o assoalho remendado com pedaços de madeira, as portas que não fechavam direito por causa das borrachas de proteção destruídas, os rostos maltratados pela pobreza e pelo cansaço do trabalho e da exploração. Nada me admirava. Era tudo tão comum. Desde minha infância me deparava com a mesma realidade. Aliás, quando criança adorava passear de trem. Na minha inocência infantil era uma adrenalina sentir aquele balanço frenético, e o ápice da alegria era atingido quando papai comprava chocolate barato. Três por um real.
Mas hoje, ver aqueles meninos de 8, 9 e 10 anos oferecendo sua infância em troca de centavo... Eram onze horas, repito. Se alguma daquelas crianças estudasse pela manhã, deveria estar na escola; se à tarde, já era tempo de estar em casa, com banho tomado, material arrumado, esperando o almoço, coisas naturalmente indispensáveis. Para algumas delas, no entanto, um luxo inatingível.
O significativo é o fato delas decretarem, prematuramente, sua falência. Se não estudam, a probabilidade de conquistarem uma vida estável e decente está próxima de zero. Bem próxima. O que pode mudar na vida dessas crianças são os produtos a serem vendidos, nada além disso.

Elas crescerão. Não terão formação profissional alguma. Saberão, no máximo, fazer rimas e frases de efeito mais agradáveis ou criativas. Aposentarão, quem sabe, o "2 é 50, 5 é 1 real". Talvez, encontrarão um amor, ou vários. Casarão. Terão filhos. E o destino destes será o mesmo de seus pais: nenhum.
Que determinismo mais desgastado! Não! Não é determinismo e sim uma grande bola de neve, um círculo vicioso, uma lógica capitalista. Para que uma minoria desfrute de champagnes, geléias importadas, Daslu e viagens fora de época é fundamental que crianças sem futuro e sem coisa alguma desperdicem suas vidas nas carcaças metálicas que chamamos trem.
É uma pena que Cláudio Lembo, atual governador de São Paulo, não faça uso dos serviços ferroviários e que Lula, nosso querido Presidente ex-metalúrgico e proletário tenha se esquecido da época em que os utilizava. Senão eles poderiam, um dia, presenciar a mesma cena que vi: " Devolve meu um real, mano. Eu te mato hein. Brinca não, devolve aí, senão te mato. E passa daqui, que esse vagão é meu..." – dois moleques brigando por causa de um real, disputando um tão valioso vagão de trem.
Ver a marginalidade e o descaso tão crus e próximos de meus olhos me tornam impotente e incrédula. E confesso que ás vezes sinto o desejo de me alienar e não pensar mais, não mais divagar, nem questionar. Cansa. As respostas, quando encontradas, são duras, frias, sem esperança. Talvez, ao invés de ter analisado meu nicho e me angustiado com ele, devesse ter pensado em que tom de vermelho pintaria minhas unhas. Isso causaria menos rugas, menos stress; então eu chegaria em casa e assistiria a "Malhação" com paz no coração. Afinal, o que muda esse meu desabafo-denúncia ? Nada.



Texto de Camila Putti.

7 comentários:

Silvia disse...

Putz!!! Q tapa! Há saída? Até quando seremos nós burguesinhos imbecís? Até quando lamentaremos com textos bonitos e nenhuma ação?

Eu acho que o problema é ainda pior. A grande questão nunca levantada quando se falam em números de redução de analfabetismo e evasão escolar é: até que ponto existe a possibilidade de essas crianças terem um futuro melhor estudando nas escolas públicas do nosso país, tão sucateadas quanto os trens meropolitanos? É triste admitir que dentro de várias escolas a visão é mais ou menos parecida: marginais infra escolarizados, explodindo bombinhas, batendo em professores e se esforçando como animais para arrebentar as grades e voltar para a realidade periférica a qual estão acostumados.
Se vontade política, sinto informar, não há saída!

Silvia disse...

Ah... eu não sei comentar bonito igual vc... rsrs.. mas tenho algo a dizer: o legal dessa troca de elogios (que muita gente chamaria de rasgação de seda e puxação de saco) é o incentivo mútuo. A gente se incentiva a escrever mais, a refletir mais, a ser mais inteligente! E essas amizades "atípicas" não têm preço!
Também não vejo a hora de te ver brilhar! Abração da leitora assídua, amiga, fã e puxa saco que te adoooora de verdade!

Claudinha disse...

Eu ainda vi a maria fumaça andando e fazendo turismo... (Ei, eu vi como relíquia, né?). Eu não moro em grande cidade e por aqui ainda se pode ver pessoas que vivem com calma. Acho que a vida moderna é puro stress. Qual a saída? Não sei...
Beijos e obrigada!
(Eu tive um colega de turma na faculdade que era de sua cidade...)

_Maga disse...

É todos os dias quando saimos de casa milhares encontramos com milhares de crianças invisiveis no caminho... tão invisiveis que quanto se tornam visiveis "ooo tio, compra uma bala" fazemos de tudo para que elas sumam logo da nossa frente e voltem ao seu mundo marginal (a margem da cidadania).

Muito bom esse texto. É uma pena que vejamos isso com tanta, mas tanta frequencia, que nada parece tocar mais... ano passado trabalhava em um Centro de Educação Infantil em uma area bem barra pesada da cidade (as professoras nos diziam para não ir ao bairro depois das 6 da tarde) e o que viamos eram crianças que mesmo estando na escola já estavam de alguma forma envolvidas com o mundo do crime e suas hierarquia... veja bem, estou falando de crianças de 2 a 9 anos!!!!!

E as professoras ainda ensinam na escola que o Brasil é o pais do futuro...

beijos

_Maga disse...

obrigada Gabriel! Não precisa manerar no palavreado não... ;)

Descobristes meu blog quase-secreto!

beijos pra ti

disse...

É... escrevi algo assim no meu blog tbm, já faz um bom tempo. No meu caso, foram crianças no metrô.

Mas sabe... o que a gente pode fazer? Será que não depende de nós, jovens, inconformados, pararmos de apenas nos "inconformar" e "denunciar" e nos mexer efetivamente pra fazer alguma - qualquer - coisa? O que? Quem sabe? Eu certamente não tenho idéia, mas... talvez se eu, você, e todas as mil outras pessoas que olham e não se conformam juntarem-se de fato... quem sabe, todos juntos, não pensamos em algo? E aí, mesmo que não funcione, pelo menos tentamos.

Ás vezes me canso de só reclamar e reclamar e reclamar e... e você?

Gabriel Ruiz disse...

Também Julha, pode ter certeza.
Bela idéiia, é de se pensar! valeu.