"Um corpo sem alma é como um disco de vinil que não toca ..."

"O jornalista fere no peito o escritor. O escritor repele o jornalista, por esmagá-lo, por obrigá-lo a renascer quase sempre de um mesmo patamar. Feliz daquele que, nesse embate, consegue servir, e bem, aos seus dois senhores..."

Política. Música. Música. Vida. Rock. Cinema. Cultura.

terça-feira, 27 de junho de 2006

A fodeção de todo dia

Ele era um cara fudido. Fodido de grana. O carro fora roubado. Era um 1.0, 97, funcionava bem, dava pra passear com o filho em lugares bacanas e levar sua mãe a rodoviária quando ela o visitava, mesmo com os atrasos, característica marcante de seu perfil. A mãe, tiazinha já nem falava mais nada. Fora 42 anos assim, não seria agora que mudaria. Na Tv passava “O Fabuloso Destino de Améli Poulain”, no quarto da vó no rádio a voz de algum pastor de alguma igreja parecida com a universal. Seu filho, 12 anos, preferia o filme.

O fato é que as coisas não iam muito bem. Além do carro furtado, a mulher não trabalhava há tempos, não sabia exatamente porque. Talvez, acostumara-se com aquilo. E como era bela e inteligente sua mulher, se orgulhava dela, mas uma mulher não poderia ser feita apenas de inteligência e beleza...

Pedro tinha um emprego bom e fazia bicos dando aulas, manjava muito italiano e mesmo assim a grana nunca dava, morava em Sampa, o custo de vida era alto. O tio do garoto, de vez em quando garantia o material escolar ou alguma outra coisa, doces, camisetas... Mas, pelo menos, conseguia que seu filho estudasse num colégio particular.

Pelas aulas de italiano, conheceu uns caras bacanas. Ouvia rock de seu tempo de juventude, nunca mais o rock fora igual. Não mesmo. E por essas andanças resolveu retomar as aulas de gaita. Começou devagar. E quando chegou em casa com uma gaita novinha em folha encontrou a bela esposa num dia não muito inspirador e ouviu: “fazer aulas de gaita, Pedro? A gente aqui no maior perrengue e vc pensando em gaita?” E o que ela fazia pra mudar aquilo? Perrengue? Onde teria ela aprendido essa palavra?

Ficou chateado. Só porque a merda da vida dependia de muita grana, precisava se foder todo dia e nunca ter um lazer? “Claro que eu vou continuar com a gaita”. E continuou. Seu filho aprovara a idéia e queria aprender também. Até se arriscava em alguns sopros, embora não levasse jeito pra coisa...


2 anos depois....


Pedro continua fodido, sem grana e com muita gente gostando dele, porque não recusa favores, conversa com mendigos, grava cds pros amigos e telefona aos domingos pra sua mãe e vez ou outra para algum considerado. E continua com a gaita, porque a porra da vida capitalista cotidiana não pode suprimir seus maiores prazeres e nem as pessoas, tantas vezes de sua própria casa, podiam fazê-lo desistir da gaita, da pizza do fim de semana, do livro que apreciava, das coisas que amava. Se tivesse grana estaria nos céus e poderia ter quantas gaitas de ouro tivesse afim. Porém, estava quebrado há tempos e, por isso, até mesmo a sua casa não gostava de seus sopros naquela gaita.

“Onde já se viu? Agüentar essa barulheira?” ...

14 comentários:

Vanessa Russell disse...

Ter dinheiro resolve tudo? Se ele tivesse dinheiro, a mulher dele gostaria da gaita?


sei lá...

Pati Barbie disse...

Nossa, muito bom. Depois de um tempo sumida foi como um presente de boas vindas ler um texto assim.
Precisamos de prazeres para aguentar a fudição do dia-a-dia...
O que seria desse homem sem a gaita?
bjocas. saudades

Gabriel Ruiz disse...

Vanessa:

se ele tivesse grana, a mulher, os parentes, as pessoas nao teria do que reclamar, pois ele as supriria. Ele poderia tocar gaita ou o que quer que fosse, essa é a questão. Mas censuram a sua gaita pq afinal ele tem coisas outras coisas importantes pra fazer, como ganhar mais grana.

Juliane disse...

...cara que difícil...
Na verdade o Pedro foi absorvido pelo sistema, assim como sua mulher e seu filho...ele até tem vontade de se desvencilhar, mas esse processo é duro e pelo amor a família, talvez, optou por ficar e continuar frustrado...o problema dele e de todos não é a falta de grana...é bem maior. Talvez se ele tivesse dinheiro e comprasse sua gaita, ele mudasse tudo...mas mesmo assim teria que dançar conforme a música...pra mim ele não quer grana, é que como ele foi (repito) absorvido pelo sistema...ele vê no dinheiro (como assim querem)a saída...
Na verdade ele tem vontade de sair da caverna...mas não tem força, ânimo...e se não sacar logo que é o que tem que fazer...será sempre frustrado.
Surtei de novo né???hehehehehe...mas muito bom o texto..dá pra analisar e viajar horas pensando...
...difícil...

Claudinha disse...

Às vezes precisamos passar bem perto do fundo do poço para sabermos nos impor e aprendermos que existem muiiitas coisas mais importantes que o dinheiro. "Mais vale um gosto, que um vintém", é velha a frase, mas diz tudo! Beijos!

disse...

1º - nossa, eu sou doida pra aprender a tocar gaita!! (e bongô também!)

2º - saí do Orkut. e comecei a viver mais, acredite. Orkut diminui tempo de vida e desfaz conexões sinápticas...

3º - dinheiro. reconhecimento. status... temos mesmo que? seria bom viver apenas de prazer, de felicidade mútua e recíproca... de tocadores e ouvintes de gaita...

beijos

Silvia disse...

Não vamos ser hipócritas, eu seria bem mais feliz hoje se tivesse mais dinheiro. Se eu tivesse carro, máquina fotográfica, computador completo e dinheiro suficiente pra comprar meus livros e CD's e fazer terapia de sacolinha sempre que eu tiver vontade, 50% dos meus problemas estariam resolvidos. Fútil? Sou mesmo, foda-se. Eu só queria que todo mundo tivesse condições de ser fútil como eu, pq a maioria não tem perspectiva nem pra sonhar com o básico. Ser fútil de vez em quando deveria ser um direito inalienável de todo ser humano!

Mandou bem, Gabriel, de novo! Bjão da sua fã! :-*

Vanessa Russell disse...

Respondendo ao Gabriel:

O problema não é a falta de grana, mas a incompreensão da mulher dele e da família que não permitem que ele faça uma coisa que gosta...
Afinal, ele pelo que eu me lembro,não largou o serviço para tocar gaita... mas a elegeu como hobby... não vejo então relação com a falta de dinheiro...
E outra coisa, viajando um pouco, se a família dele não o entende, não o entenderia de qualquer modo, se ele fosse rico, sua mulher faria compras e desejaria que ele tivesse cada vez mais dinheiro, como num círculo vicioso.
ter dinheiro alivia alguns problemas, mas traz outros...

Claro que eu queria ter dinheiro pelo menos para pagar a conta de telefone... não tenho, me fodi, mas não é por isso que sou uma pessoa infeliz, pelo contrário... OU seja, o dinheiro complementa, mas não resolve...isso quando não atrapalha!!!

_Maga disse...

É, a vida é isso: as coisas que fazemos...

"se eu for ligar para o que é que vão falar, não faço nada"

E triste pensar que tem pessoas que tem como maior preocupação fazer as pessoas infelizes...

triste... demais...

Espero que mais pessoas toquem suas gaitas barrulhentas por ai... ;)

beijos pra ti

Caroline Ferreira disse...

Gostei muito desse texto Gabriel. Vou até contar uma coisa que me chocou esses dias, não vou dizer com quem foi a conversa, não importa, mas olha só:
Eu disse: Então, eu escrevo ficção por que me dá prazer. É igual o teatro, eu preciso dele pra ser feliz, ainda não desisti, um dia retorno, nem que eu tenha que abandonar minha profissão "Jornalista" daqui dois três anos.
Me responderam: A vida não é prazer, vc precisa parar com isso.

Enfim... Beijos pra vc e continue sempre com essa sensibilidade!

Gabriel Ruiz disse...

Repostas:

Óbvio que o dinheiro é importante e altamente necessário. Também sou futil de vez em quando e a Maga mandou bem: se a gente for liga pro que vamos fazer, naõ fazemos nada. A questão é msm um ciclo, a Vanessa matou a charada.

E Carol:
as pessoas estão aí mesmo pra derrubar a gente e nem sabem disso, são "alvo" desta sociedade. E quem disse q a gente só busca prazer? Isso me irrita, juro que gostaria de estar junto com vc para dar a pessoa a resposta que merecia.

E Ju a questão não é só viver de prazer, mas de ser julgado por querer fazer uma coisa ou outra e colocar valores de juízo de grana no meio.

Babi disse...

Capitalismo Selvagem = Homens primatas

Anônimo disse...

Looks nice! Awesome content. Good job guys.
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Anônimo disse...

Very pretty design! Keep up the good work. Thanks.
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