"Um corpo sem alma é como um disco de vinil que não toca ..."

"O jornalista fere no peito o escritor. O escritor repele o jornalista, por esmagá-lo, por obrigá-lo a renascer quase sempre de um mesmo patamar. Feliz daquele que, nesse embate, consegue servir, e bem, aos seus dois senhores..."

Política. Música. Música. Vida. Rock. Cinema. Cultura.

terça-feira, 18 de julho de 2006

"Rodo Cotidiano"

Acordara morto com um tiro no estômago e outro no peito, na altura do coração. O lençol rósea ficara ruborizado. Suas últimas palavras: "Não façam mal ao bebê, é uma criança!"

A história de sempre nas ruas da periferia, do Rio ou de São Paulo. Hoje são a mesma coisa. Fora confundido com um bandido. Não houve tempo, sua mulher apenas implorava, gritava, berrava e acabou com a região dos olhos, roxa. Segundos antes de sentir queimar o abdômen pela rajada da bala, a cena na televisão, uma ong mostrava seus projetos de educação infantil e pedia solidariedade, contribuição...

No velório cantavam um samba que dizia:

Ooo mulatava vem pra cá dançar
vem pra cá, vamos ser felizes
a hora é agora, não se pode esperar

Nos morros, nas favelas e algum lugar esparso, as mortes dos considerados são motivos de festa e bebedeira. Aliás, uma breve pausa aqui. Quando eu morrer não quero aquela música tosca nos alto-falantes da igreja de Jataizinho anunciando um funeral. As lágrimas são invitáveis, mas quero poesia, como também quer minha mãe, Raul no velório dela...

Quatro horas antes de morrer na mesma cama onde "fabricara" sua linda criança, atendera uma vítima da miséria, fome, da falta de oportunidade e do subdesenvolvimento. Tinha a modéstia de nunca deixar que alguém passasse na porta de sua casa sem sair dali com algum "sustento". Naquele dia não fora diferente. Porém, além do pedaço de bolo e uma banana, dera ao mendigo 50 centavos para a pinga. O indivíduo foi sincero:

"ó, agora eu vo fala uma verdade! To com fome, mas queria muito tomar é uma cachaça. Com todo o respeito perante a sua pessoa, se o senhor puder ajudar o irmão aqui..."

O mendigo com a moeda nos bolsos e a comida no saco pedia que Deus abençoasse a ele e a família sem parar, insistentemente, chegava a ser cansativo. Quando já estava na esquina voltou e disse novamente:

"Obrigado senhor, fique com Deus".

Ficou pensativo, mas não podia imaginar que realmente teria a desonra de morrer confundido com bandido, como acontecera a um colega de trabalho há 2 semanas e que, naquele mesmo dia, "ficaria com Deus".

11 comentários:

Cristiano Contreiras disse...

...
e Sao Paulo só na degradação e violencia, hein?

Silvia disse...

rsrs..quanado entrei pela primeira vez eu li "rodo corintiano" e pensei, "já tah o Ruiz zoando a curintianada outra vez!"...rsrs

Mas falando sério...

Dizem que isso é modernidade, acusam a igreja de ser antiquada, mas quando Herodes queria matar Jesus Cristo, centenas de primogênitos inocentes morreram tb. Parece uma comparação tosca, mas é só pra mostrar como o mundo que se diz evoluído pelo capitalismo é apenas um mero reprodutor de porcarias do passado.

Quanto ao seu velório, num queria pensar nisso não, mas se vc morrer antes de mim pode deixar que eu levo poesia atrás, cantando "Vai-te embora pra Pasárgada e leve com vc todo o lirismo libertário... vá e descubra a sabedoria que insiste em se esconder na ausência de palavras... Só enquanto eu respirar vou me lembrar de vc!"

Papo brabo, credo! Cá estamos, vivos e revolucionários!

Claudinha disse...

Aqui a morte chega de maneira estúpida e leva com ela inúmeros sonhos não realizados... Beijo!

Vanessa Russell disse...

Meu caro... não sei se é o sono, mas li esse post com a minha tia e não entendi mta coisa... pode ter sido a falta de atenção e esse comentário é inútil... ehehhe....

Vou relê-lo assim que der...
Estava vendo... estou um tanto qto ausente deste blogg, que costuma ser destino certo qse todas vezes que entro na net... mas minha conexão não ajuda!!!

Qta linguiça....

bjo... boas...

Pati Barbie disse...

Para não precisar falar novamente do problemas sociais... "hoje é sexta-feira" quem lembra dos problemas dos outros?... prefiro comentar o parágrafo sobre o velório... sempre dizia q queria trocar as velas, aquelas que ficam do lado do caixão, por uma montanha de latas de cervajas. Hoje já não tenho um pensamento tão alcólatra... então, penso que o velório será para ps vivos e não para mim, farão do jeito que melhor agrada-los...
Bom final de semana querido!

Pati Berbie disse...

Preciso do link do blog da Ju "eunaosouumvegetal", consegue pra mim?
obrigada beijos.

Claudinha disse...

Quanta realidade emana deste texto. Quantas vezes o bandido é quem está atrás da arma?
Não dá mais para aguentar!
Beijo!

Vanessa Russell disse...

Desconsidere o post anterior, por favor... eu estava mesmo com sono...

Estava conversando com meu primo que é agente penitenciário e que foi refém nestes últimos ataques... de repente...somos todos tão vítimas, tão indefesos, mas ao mesmo tempo o pensamento de "tem que matar esses bandidos que fizeram isso", nos torna tão cruéis e tão sem nenhuma razão... tão bandidos também... a nossa pequena falta de honestidade, pode mesmo ser com o troco do supemercado... já indica uma mentalidade presente (infelizmente)na nossa sociedade, essa mania de querer se dar bem, mesmo e sempre tirar uma vantagem....

A violência está aí... aqui no nosso rodo cotidiano!!!! "Ela é linda, mas não tem nome, é comum e é normal..."

Beijos!!!!
(agora sim, começo a sentir saudades!!!!)

_Maga disse...

que história... que história!!! Mais uma entre tantas nas nossas cidades, que você sabe captar tão bem...

... e mesmo que fosse um bandido, ele estava fazendo algo de muito errado para morrer assim?

bjo

ps.: como assim "Acordara morto"? rs

Anônimo disse...

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