"Um corpo sem alma é como um disco de vinil que não toca ..."

"O jornalista fere no peito o escritor. O escritor repele o jornalista, por esmagá-lo, por obrigá-lo a renascer quase sempre de um mesmo patamar. Feliz daquele que, nesse embate, consegue servir, e bem, aos seus dois senhores..."

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quinta-feira, 24 de maio de 2007

A ocupação da USP

Foto: fotosdaocupacaousp.blogspot.com

PS: Leitor, por gentileza, se estiver com pressa vá direto para o tópico "força da juventude atual".

Vcs estão vendo aí na TV e em todos os lugares a ocupação da reitoria da USP pelos estudantes. O que vc acha disso? Vc sabe por que realmente eles estão lá?


-> Percebeu o que a mídia está fazendo?

Ela está especulando sobre a possível invasão da PM para retirar os estudantes do prédio; preparando o terreno para a invasão, quando o mais correto seria ouvir e discutir com estudantes, sociedades, reitores e Estado o que fazer e esclarecer o assunto, ao invés de especular um possível fato.

Serão o Serra e seus decretos inocentes? Pelo que sabemos, sua política neoliberal visa capitalizar e privatizar as universidades públicas.


-> Contato com o movimento dentro da Univesidade

Quando ingressei na universidade pública (UNESP) já no primeiro ano (estou no terceiro) tive contato com o movimento estudantil. Foi um pouco frustrado porque descobri que por trás dos grandes CAs (centros acadêmicos) e DAs (Diretórios acadêmicos) havia legendas políticas. E uma dessas dominava quase tudo. Disseram-me que as legendas ajudam a fortalecer o movimento (estudantil), mas mesmo assim em Bauru procuravam ser apartidários.

O que sempre discutíamos também era a força de movimentação estudantil. O que ela era capaz de fazer pela classe ou até onde conseguia tornar reais suas eternas reivindicações (restaurante universitário, infra-estrutura decente, moradia)? Em Bauru até hoje não vi nada considerável ocorrer. O movimento não possui força para brigar. Muita gente torce o nariz quando algum membro de DA entra nas salas pra passar recados ou divulgar assembléias.


-> Força da juventude atual

Outro. Ninguém nos mobilizamos. Ninguém queremos greve. Pouquíssimas pessoas frequentam reuniões e só enchem as assembléias quando o tema GREVE está em pauta. Ninguém queremos greve, porque ninguém quer ficar aqui nas férias, todos queremos olhar para o umbigo e se formar em 4 anos, independente das condições da universidade e dos professores. Já que as conquistas não serão para o meu benefício, fodam-se também as próximas gerações, que herdarão os problemas atuais todos.

Diz-se e isso ecoa tanto que torna uma tese, real. A tese de que a juventude de hoje e os movimentos todos não são como antigamente, em que iam para as ruas, apanhavam da polícia, brigavam por alguma coisa, lutavam. Tudo bem, o inimigo era comum, a ditadura.

Hoje não temos força? Talvez não. O povo na calçada te reprova com olhar superior, achando que a nossa causa não é a dele. Há protestos? Eles acontecem, mas por incrível que pareça, depois dos anos negros no Brasil, tenho a impressão de que nossa voz perde-se a cada ano. Estamos quase roucos. E quando na rua estamos, a mensagem que segue é apenas uma pauta de um veículo midático qualquer. E quando conseguimos gritar, fingem não ouvir; ou pior, tapam os ouvidos do povo.

-> Eu nunca vi algo semelhante ao que está ocorrendo na USP. Sobretudo, partindo de estudantes e com tanta informação disponível produzida por eles mesmos.

Remete aos históricos anos de chumbo no país. Conseguiremos?

http://www.youtube.com/watch?v=RjkybwluKkg

(Infelizmente não consegui postar o vídeo direto aqui! É pocuo mais de 1 min.!)

-> Termino o post com um trecho do Manifesto Canino publicado no Blogue oficial da ocupação da USP (agora dá pra sacar o que realmente está acontecendo por lá):

Jaulas abaixo

Foram-se as marretadas catárticas. Ficou o desafio de romper a bolha acadêmica, extravasar os muros, preencher o vazio, ocupar.

Estudantes, educadores, operários, cabeças pensantes da Universidade e de toda a cidade: é tempo de movimentar-se.

11 comentários:

luma disse...

Tenho uma visão bem diferente, houve reuniões e terá outra na Segunda feira. Quando estive em São Paulo ainda não tinha estourado, mas esse balão vem de tempos. Quando "estudantes" invadem a USP para requisitar que ela não seja obrigada a apresentar balanços, abrindo margem para que a reitoria financie as bebedeiras e passeatas de um socialismo promovido pelo próprio centro acadêmico, que na maioria é formado por gente que não gosta de estudar, coloco em dúvida a credibilidade da ação.
Acho que os professores que tentaram serem ouvidos ontem em Brasília, merecem mais atenção.
Bom fim de semana! Beijus

Juliane Cintra (Jubão) disse...

Nossa faz um tempão que não escrevo aqui!!!!hehehe..mas enfim...
Inicialmente comecei a leitura, na verdade um passar de olhos por idéias, frases, expressões há muito repetidas, desde de antes da minha entrada a faculdade...voltei...parei...recomecei uma leitura efetiva...
Gabis, em relação ao movimento, a iniciativa da ocupação é muito boa!!!...mas o alerto...que ninguém é capaz de tampar os ouvidos do povo...acho que talvez acreditar mais na nossa capacidade de transformação é o caminho!Também já questionei o lance dos ninguéns egoístas e acomodados...mas diferente de você ainda acho que temos força...o difícil mesmo é a desilusão, suplantar essa sensação de inferioridade, assumir a cara da nossa geração...que não é igual a nenhuma e nem deve ser...
Ah...e movimentações como essas da USP já ocorreram sim...em diferentes âmbitos, por outros motivos e nos mais variados lugares!!!É que aqui os caras estavam no lugar certo na hora certa!!!!!
Bela reflexão...o que aqui está escrito, é o que muitos pensam...
...se é que tenho condições para tal...recomendo uma dose de transcedência para todos que compartilham esse pensamento...

Gabriel Ruiz disse...

Oi Luma! Desculpe-me, mas a frase " centro acadêmico, que na maioria é formado por gente que não gosta de esturar", é preconceituosa. Pode até ter pessoas que se comportam dessa maneira (gente que não gosta de estudar), mas não dá pra generalizar; geralmente são pessoas (por experiência vivida) que encontram tempo para se dedicar aos CAs e movimentos em geral (e isso dá bastante trabalho, porque precisa-se correr atrás de divulgação, reuniões com docentes e estudantes, burocracias etc) e ainda cursam suas respectivas faculdades.

Sobre a ação, ela reivindica outras coisas, não apenas os decretos do governador. Levando-se em consideração que todas as universidades paulistas públicas do Estado estão mobilizadas, é sinal de que as coisas não estão tão bem assim e ao meu ver apenas ações como essas podem alcançar algum resultado. Poque, ao contrário do que muitos pensam, os estudantes não estão lá "não fazendo nada", discussões, atividades, entrevistas, estudos estão sendo feitos na ocupação...
A atenção que vc mencionou tbm concordo, mas que os valores de docentes e alunos se igualem; não é porque são docentes que merecem maior atenção.
O que mais preocupa é a cobertura da TV sobre os fatos; ainda bem que com a net dá ver "os 2 lados"...

A colocação foi apenas para crescermos com a discussão!
Obrigado Luma!

SAMANTHA ABREU disse...

Estudo em Universidade Pública aqui em Londrina (UEL), fui integrante do CA de Letras durante 2 anos, e do DCE por 1 ano. Sei que existem sim partidarismo, mas tomara que a força deles não nos domine. A não ser que os objetivos e os ideais sejam os mesmos.

Quanto à afimação da Luma, gostaria de dizer que a universidade ainda é, e temos que lutar pra que continue sendo, uma pluralidade de aptidões, de ideais e de lutas. Enquantos uns se alimentam de teoria nas cadeiras das salas de aula, outros se envolvem com problemas maiores pelos corredores e salas dos centros acadêmicos. Não conseguiremos, nunca, concluir quem aprende mais com isso. Mas digo, sem nenhuma dúvida: todos os momentos, todas as horas e papos que tive nas salas do CA, DCE e pelos corredores da UEL me amadureceram, me fizeram enxergar muita coisa escondida sob os livros e me deram a oportunidade de conhcer as idéias de muita gente.
Isso, pra mim, é mais caro do que o que se ensina em sala de aula.
Beijos,
;D

SAMANTHA ABREU disse...

Ah GAbriel!
esqueci de dizer:

Obrigada pela visita e pelo "FODIDOOO"... adorei!
vê se aparece mais!

um beijo

Vanessa disse...

Gábis, meu caro Gábis...
Essa questão da greve é algo que permite 1001 interpretações...
Se me permite colocar, a greve será (?) (caso haja) uma férias fora de época e sem duração definida... se é que vc me entende!
O que falta!? Falta força no movimento?! Falta consciência política dos alunos!! Falta senso de coletividade!
Temos força?! Sem dúvida! O que estão fazendo na USP é isso... mostrar que "Todos juntos somos forte Somos flecha, somos arco Todos nós no mesmo barco Não há nada pra temer".
E na Unesp porque não avançamos tbm!? Porque por algum motivo não temos discussões políticas de fato!
E isso é política!!!!
Movimento Estudantil é política!!! E tem que ser discutido!
Mas tem reunião do movimento toda semana... ninguém vamos!
Eu acho que chegou a hora de todo mundo perceber que o poder está conosco, mas temos que saber usá-lo!

Isso é sempre meio foda... se mão nos impusermos, nunca seremos notados...

Quanto aos meios de comunicação e a famigerada alienação das massas... antes, temos que mudar a nossa própria visão... Quantos estudantes mesmo não têm visão semelhante à da Luma? Antes de querer que sejamos ouvidos, acho que temos que saber o que onde e para quem estamos gritando!

Gabriel Ruiz disse...

Estou orgulhoso e honrado com todas estas opiniões e dizeres. Era essa a intenção do post, discutir, debater, ver as visões...

obg pessoal.

A.Cerri disse...

Gabriel,

Muito boas as discussões desse post.
Sou totalmente favorável à ocupação da USP e à greve que deve acontecer dentro de poucos dias na Unesp de Bauru. Ao contrário do que muitos pensam, o movimento estudantil da Unesp está bem adiantado com relação aos decretos do Serra. Já foram organizadas diversas reuniões, gds e palestras sobre os decretos e sobre as reformas neo-liberais.
Gostaria de falar uma outra coisa: entrem para o movimento estudantil. Se vocês acham que ele está uma bosta, entrem para mudá-lo; se vocês acham que está bom, entrem para melhorá-lo. Só não digam que isso não serve para nada, porque cruzar os braços serve menos ainda.

_Maga disse...

Acredito que está na hora do movimento estudantil renovar o seu modo de atuar. Se o movimento está perdendo força é porque está na hora de ele começar a atentar para as necessidades dos estudantes e da universidade e ver como ele pode a partir dessas aliados para a sua causa.

Não sei bem como fazer isso, mas sei que se continuar tentando agir como sempre fez continuará perdendo força...

beijos

luma disse...

Gabriel, eu adoro sacudir o povo! E quando chamamos universitários de remelentos, eles logo se manifestam! Por isso, muitos autores fazem papel do diabo.
Indico leitura do blogue do Idelber Avelar, com excelente artigo sobre o fato.
Boa semana! Beijus

silvia disse...

Eu queria fazer algumas considerações apenas sobre conjuntura social, até porque estou realmente sem tempo de participar e acompanhar essas manifestações todas e não tenho moral pra dizer nada, embora eu acredite ter esse direito mesmo assim...
Bem... a parte do post que mais me chamou a atenção foi a que você disse que o povo na calçada olha torto e não se envolve com a causa das manifestações. Obviamente, considerando que a qualidade da pesquisa e desenvolvimento acadêmico são geradores de tecnologia e crescimento, beneficiando toda a população, infelizmente há de se lamentar o posicionamento contrário da mídia e de tantos outros setores contra as manifestações. Mas há ainda outro fator que independe de influências, de persuasão, de quem tem o poder da palavra e do dinheiro. Não há moral que julgue as escolhas de um povo que passa fome, que passa necessidade. Não dá pra julgar aqueles que vêem os manifestos e nos julgam um bando de vagabundos porque estamos protetando ainda em um patamar de educação superior ao dos filhos deles, que estão penando no ensino médio público enquanto pudemos fazer cursinho... Essas pessoas precisam ser compreendidas no fundo de suas necessidades, e eu só queria pedir que pensassem nisso antes de ficarem putos diante da falta de apoio da sociedade à causa dos universitários fodidos que somos.